Coluna Mulher – 21.12.2025 – Letras Femininas: ser mulher entre livros, vozes e atravessamentos

Letras Femininas: ser mulher entre livros, vozes e atravessamentos

Por Viviane França (*)

Ao longo deste ano, o Clube de Leituras Letras Femininas foi, mais uma vez, espaço de encontro, escuta e partilha. Lemos juntas Mata Doce, de Luciany Aparecida; Quarto de Despejo, de Carolina Maria de Jesus; O Grito de Eva, de Marília de Camargo César; e Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres, de Clarice Lispector. Obras distintas em linguagem, tempo e contexto, mas profundamente conectadas por um eixo comum: o ser mulher em suas múltiplas camadas, dores, resistências e descobertas.

Carolina Maria de Jesus nos lança, sem filtros, à dureza da sobrevivência. Em Quarto de Despejo, ser mulher é lutar diariamente contra a fome, a exclusão, o racismo e a invisibilidade. É ser mãe solo, mulher negra e pobre em uma sociedade que insiste em empurrar determinadas existências para a margem. Carolina escreve para não enlouquecer, para existir, para deixar registro. Sua escrita é denúncia, mas também afirmação de dignidade. Ela nos lembra que falar sobre ser mulher exige falar, necessariamente, sobre classe e raça.

Luciany Aparecida, em Mata Doce, nos conduz por uma narrativa atravessada pela violência, pelo silêncio imposto e pela brutalidade que atinge, de forma particular, corpos femininos no interior do Brasil. Ali, ser mulher é aprender cedo sobre medo, sobre limites impostos à força, sobre resistir mesmo quando a palavra parece faltar. A violência não é apenas física, é estrutural, cultural, histórica. Mata-se o corpo, mas também se tenta matar a voz. E ainda assim, a narrativa insiste em sobreviver.

Já em O Grito de Eva, Marília de Camargo César nos provoca a olhar para dentro e para estruturas que, muitas vezes, legitimam o silenciamento. O grito que ecoa não é apenas o da opressão externa ou do conflito íntimo, mas também daquele que nasce da violência naturalizada e da culpa imposta em nome da fé. Eva grita porque sente, porque questiona e porque se recusa a aceitar, passivamente, papéis e sofrimentos justificados por discursos religiosos. É um grito atravessado pela violência doméstica, pelo silêncio das instituições e por expectativas morais que pesam sobre as mulheres, um grito que atravessa gerações e que muitas de nós reconhecemos como nosso.

Clarice Lispector, em Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres, nos apresenta um outro tempo: o da descoberta de si. Lóri aprende a existir para além do olhar do outro, a sentir prazer sem culpa, a compreender o amor sem anulação. Aqui, ser mulher é processo, é travessia, é construção cotidiana. Clarice nos lembra que também é revolucionário falar de desejo, de autonomia emocional e de liberdade subjetiva.

Ler essas obras em grupo potencializa ainda mais seus sentidos. No Letras Femininas, somos um coletivo heterogêneo: mulheres de diferentes idades, raças, classes sociais, trajetórias e orientações sexuais. Cada leitura se amplia quando atravessada pelas nossas próprias experiências. Falamos de maternidade e de não-maternidade, de carreira, de afetos, de violências sutis e explícitas, de privilégios e ausências. Em muitos momentos, reconhecemo-nos nas personagens; em outros, somos convidadas a escutar realidades que não são as nossas, mas que também nos convocam à responsabilidade.

Conversar sobre o ser mulher, a partir dessas leituras, é compreender que não há uma experiência única. Há muitas. E todas importam. O clube se torna, assim, um espaço de acolhimento, mas também de formação humana e política. Ler mulheres é reconhecer vozes historicamente silenciadas. Ler juntas é fortalecer vínculos, ampliar consciências e lembrar que não estamos sozinhas.

Entre páginas, cafés e conversas semanais, reafirmamos algo essencial: a leitura é um ato de prazer, mas também de resistência. E ser mulher, em um mundo ainda tão desigual, é seguir aprendendo, gritando, escrevendo e vivendo, juntas.

Para encerrar este ciclo, desejo que o Natal chegue como pausa, mas também como esperança. Que seja tempo de acolhimento, de afeto e de descanso, porque mulheres não precisam ser fortes o tempo todo. E que o novo ano nos encontre mais conscientes, mais livres e mais unidas. Que 2026 seja um ano de prosperidade que vá além do material: prosperidade de direitos, de escolhas, de voz e de autonomia. Que nenhuma mulher seja deixada para trás, que nossas conquistas sejam coletivas e que nossos sonhos sigam sendo políticos.

Um Feliz Natal e um Ano Novo de coragem, equidade e vida digna para todas!

 

*VIVIANE FRANÇA é Mulher, Advogada, Pesquisadora, Mestre em Direito Público, Especialista em Ciências Penais, autora do livro Democracia Participativa e Planejamento Estatal: o exemplo do plano plurianual no município de Contagem. Secretária de Defesa Social de Contagem/MG, Sócia do França e Grossi Advogados.

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