Governo de Minas testa novo modelo de educação inclusiva que chega a Dubai

Foto Divulgação

Projeto-piloto realizado na região de Almenara, no Vale do Jequitinhonha, utiliza tecnologia, avaliação cognitiva e acompanhamento individualizado para ampliar a efetividade da inclusão na rede estadual; metodologia brasileira foi selecionada para missão internacional da ApexBrasil em Dubai.

Garantir a matrícula é apenas o primeiro passo da inclusão. O desafio seguinte é saber se o estudante está aprendendo, desenvolvendo novas habilidades e conquistando autonomia. É a partir dessa questão que o Governo de Minas Gerais começou a testar um novo modelo de educação inclusiva no Vale do Jequitinhonha.

O projeto-piloto está sendo desenvolvido na área da Superintendência Regional de Ensino de Almenara e utiliza tecnologia, inteligência artificial, avaliação cognitiva e acompanhamento individualizado para identificar dificuldades, potencialidades e diferentes formas de aprendizagem dos estudantes da educação especial.

Os primeiros relatos das escolas participantes apontam mudanças na atenção, participação, comunicação e realização de atividades. Professores, gestores e famílias também relatam avanços no desenvolvimento de habilidades que, em alguns casos, anteriormente não eram observadas.

A experiência ganha dimensão diante do tamanho do desafio da rede estadual mineira. Segundo a Sinopse Estatística da Educação Básica 2025, do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), Minas Gerais registrou 85.007 matrículas de estudantes da educação especial na rede estadual.

Um levantamento realizado a partir das bases oficiais do Censo Escolar e dos parâmetros utilizados no financiamento do Fundeb identifica 42.392 matrículas de Atendimento Educacional Especializado (AEE). A diferença estimada é de 42.615 estudantes.

Além da dimensão educacional, a ampliação do AEE também possui impacto potencial sobre o financiamento da educação. O Fundeb considera, para fins de distribuição dos recursos, matrículas do Atendimento Educacional Especializado, com fatores de ponderação específicos. As regras e valores para 2026 são definidos pelo conjunto de normas e bases oficiais do Fundo.

A partir dos parâmetros utilizados no cálculo, a ampliação da cobertura do AEE para o contingente ainda não atendido poderia representar um potencial estimado de até R$ 419 milhões adicionais por ano para a educação mineira.

Esse valor, entretanto, não representa uma receita automaticamente devida ao Estado. A eventual ampliação dos recursos depende da efetiva oferta do atendimento e do cumprimento das regras de matrícula, registro, ponderação e distribuição estabelecidas pelo Fundeb. O cálculo serve, portanto, para dimensionar o potencial financeiro associado à expansão do atendimento especializado.

Um laboratório para a inclusão

Foi nesse cenário que começou a ser desenhada a experiência na região de Almenara. Um dos idealizadores da iniciativa é Pacífico Ferraz Souto, ex-superintendente regional de Ensino de Almenara. A partir da experiência acumulada na gestão pública, a proposta nasceu de uma constatação: estudantes da educação especial apresentam necessidades, dificuldades e potencialidades diferentes, e a escola precisa de informações capazes de orientar respostas individualizadas.

A proposta, portanto, vai além do diagnóstico e da matrícula. O objetivo é acompanhar o desenvolvimento do estudante e produzir informações que ajudem professores e equipes pedagógicas a definir estratégias mais adequadas para cada criança. “Quando pensamos nesse projeto, partimos de uma realidade que conhecíamos muito bem: não basta garantir a matrícula e dizer que a criança está incluída. Precisávamos saber se ela estava aprendendo, se desenvolvendo e conquistando autonomia. O que começamos a observar nas escolas de Almenara é muito significativo. São crianças mais atentas, mais participativas e desenvolvendo habilidades que muitas vezes nem a escola nem a própria família imaginavam que poderiam alcançar. E isso muda tudo. Muda a forma como o professor enxerga aquele aluno, muda a expectativa da família e, principalmente, muda a perspectiva de futuro daquela criança. É aí que um projeto educacional começa a se transformar também em um projeto de transformação social”, afirma Pacífico.

Na prática, o projeto procura responder a perguntas fundamentais para o trabalho pedagógico: como cada estudante aprende? Quais são suas potencialidades? Onde estão suas principais dificuldades? Que estratégias podem favorecer seu desenvolvimento?

As avaliações individuais geram informações para subsidiar o trabalho de professores e equipes pedagógicas, permitindo que as intervenções sejam planejadas de acordo com as características de cada estudante.

Resultados percebidos dentro da escola

É no cotidiano escolar que os primeiros efeitos começam a aparecer. “A gente começou a perceber mudanças que vão muito além de uma avaliação no papel. Temos crianças mais atentas, participando mais das atividades e conseguindo fazer coisas que antes tinham muita dificuldade para realizar. E talvez o mais importante seja que o professor passou a conhecer melhor aquele aluno. Quando você entende onde estão as dificuldades, mas também identifica as potencialidades da criança, consegue trabalhar de outra maneira. Para quem está dentro da escola todos os dias, acompanhar essa evolução é muito significativo”, relata uma diretora de uma das escolas participantes.

As famílias também começam a perceber mudanças fora do ambiente escolar. “Eu percebi a mudança no dia a dia. Meu filho está mais atento, começou a se interessar mais pelas atividades e hoje consegue fazer algumas coisas sozinho que antes precisava da nossa ajuda. Para uma mãe, às vezes pode parecer uma evolução pequena para quem olha de fora, mas para nós é enorme. Cada coisa nova que ele aprende representa mais autonomia e faz a gente enxergar possibilidades que antes nem sabia que ele poderia alcançar”, relata a mãe de um dos estudantes atendidos.

Os relatos, isoladamente, não constituem indicadores quantitativos de impacto. Eles ajudam, porém, a revelar a dimensão humana da experiência. O próximo passo é transformar essas percepções em dados capazes de medir a evolução dos estudantes: quais habilidades avançaram, em quanto tempo, quais intervenções produziram melhores resultados e em que medida houve mudanças em aspectos como atenção, comunicação, participação, aprendizagem e autonomia.

Uma experiência estadual diferente das iniciativas municipais

A experiência da região de Almenara também deve ser diferenciada de outros projetos que utilizam a metodologia em Minas Gerais. São Joaquim de Bicas, Igarapé, Nova Serrana e São Geraldo implantaram iniciativas em suas respectivas redes municipais. O projeto desenvolvido na região de Almenara, por sua vez, é uma iniciativa do Governo de Minas Gerais na rede estadual de ensino.

A existência de experiências em diferentes redes permite observar a aplicação da abordagem em municípios, escolas e contextos socioeconômicos distintos. Com a evolução dos projetos, será possível analisar indicadores, custos, dificuldades de implantação e possibilidades de expansão.

 

Ciência, tecnologia e acolhimento

A metodologia utilizada no projeto foi desenvolvida pela Cognvox, empresa brasileira voltada ao desenvolvimento cognitivo e à educação inclusiva. A abordagem tem origem em mais de três décadas de estudos conduzidos pela doutora em Psicologia Cognitiva Fabiana Wanderley, diretora científica da empresa, e em sua trajetória de pesquisa acadêmica.

A solução recebeu reconhecimentos no ambiente brasileiro de inovação, incluindo premiação em iniciativa da Unimed Nacional com participação do Hospital Israelita Albert Einstein, além de reconhecimentos em programas ligados ao Sebrae e à inovação em Minas Gerais.

A metodologia também é utilizada fora de Minas Gerais. Em Penedo, Alagoas, integra o programa Penedo Inclusiva e acompanha estudantes da rede municipal. Agora, a tecnologia desenvolvida no Brasil também começa a ganhar projeção internacional. A Cognvox foi selecionada pela ApexBrasil para participar da Missão de Startups à GITEX Expand North Star 2026, em Dubai, um dos principais eventos internacionais de tecnologia e inovação, integrando o grupo de 30 startups brasileiras selecionadas para a missão.

A participação leva a Dubai uma metodologia que hoje está sendo testada nas escolas estaduais da região de Almenara e abre espaço para que uma experiência desenvolvida no Brasil seja apresentada a investidores, empresas, governos e representantes do ecossistema internacional de inovação.

Para Minas Gerais, entretanto, o principal teste da metodologia não está nas premiações nem nos eventos internacionais. Está nas escolas.

 

O que o projeto precisa responder

É justamente essa a função de um projeto-piloto: permitir que o poder público acompanhe os resultados antes de discutir uma eventual ampliação da iniciativa. As perguntas agora são objetivas: quantos estudantes evoluíram? Em quais habilidades? De que ponto cada criança partiu? Quais mudanças ocorreram depois das intervenções? Houve evolução mensurável em aprendizagem, atenção, comunicação, participação e autonomia?

As respostas poderão ajudar o Governo de Minas a avaliar a efetividade da experiência, identificar desafios de implantação, dimensionar custos e analisar a possibilidade de utilização da abordagem em outras escolas e regiões.

O tamanho do desafio reforça a importância desse acompanhamento. São 85 mil estudantes da educação especial na rede estadual, enquanto o levantamento utilizado no projeto identifica uma diferença significativa entre as matrículas da educação especial e as matrículas de AEE.

Entre o Vale do Jequitinhonha e Dubai, a experiência começa a percorrer dois caminhos ao mesmo tempo: em Minas, precisa demonstrar, com dados, sua capacidade de transformar o desenvolvimento e a aprendizagem dos estudantes; no cenário internacional, passa a apresentar uma tecnologia brasileira que busca novas respostas para um desafio compartilhado por sistemas educacionais em todo o mundo: fazer com que inclusão signifique não apenas estar na escola, mas aprender, desenvolver potencialidades e conquistar autonomia.

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