Dia das trabalhadoras: A desigualdade salarial, a jornada tripla que esgota as mulheres e o poder de resistir
Por Viviane França (*)
No dia 1º de maio, comemoramos o Dia da Trabalhadora e do Trabalhador. Quero abrir esta coluna trazendo duas reflexões necessárias à nossa pauta, em uma data símbolo nacional: a tripla jornada enfrentada pelas mulheres e a desigualdade salarial em relação aos homens.
Os dados divulgados pela OIT (Organização Internacional do Trabalho) em novembro de 2025 mostram que as mulheres dedicam, em média, 9,8 horas semanais a mais do que os homens ao trabalho doméstico. Com o recorte racial, esse número sobe: mulheres negras dedicam aproximadamente 22,4 horas semanais a mais. Nas regiões rurais, o dado também é alarmante, pois as mulheres do campo dedicam mais do que o dobro de horas ao trabalho doméstico em comparação aos homens.
No âmbito global, as mulheres realizam 76,2% de todo o trabalho de cuidado não remunerado do mundo. Isso significa que, enquanto 606 milhões de mulheres exercem integralmente esse trabalho sem remuneração, apenas 41 milhões de homens realizam as mesmas tarefas.
Esses dados revelam dois grandes problemas de desigualdade de gênero: os impactos na saúde física e mental das mulheres, evidenciando a tripla jornada (trabalho profissional, trabalho doméstico e carga mental) e, consequentemente, os prejuízos às suas trajetórias profissionais.
A pesquisadora Leah Ruppanner, da Universidade de Melbourne, na Austrália, dedicou as duas últimas décadas ao estudo da sobrecarga feminina, especialmente a mental, resultando no livro *Drained* (“Esgotada”, em tradução livre). Ela identificou oito categorias de carga mental e destaca que grande parte dessa sobrecarga não tem limites e causa danos permanentes, incluindo a rota mental oculta do metacuidado, na qual as mulheres abrem mão do próprio autocuidado para que tudo flua bem para a família e os filhos.
Em 2023, a Lei de Igualdade Salarial entre Mulheres e Homens (Lei 14.611/23) entrou em vigor. Ainda assim, o 5º Relatório de Transparência Salarial e Critérios Remuneratórios, divulgado em abril de 2026 pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), aponta que, apesar do crescimento de 11% na participação feminina no mercado de trabalho, as mulheres ainda recebem 21,3% a menos do que os homens no setor privado. O relatório também registra aumento no número de empresas com contratação de mulheres negras (3,6% a mais), mas a desigualdade de renda permanece inalterada.
A grande questão é: as políticas públicas voltadas à pauta feminina têm enfrentado esses problemas com o objetivo real de reduzir esses índices e, especialmente, os impactos emocionais que afastam as mulheres do mercado de trabalho e do aperfeiçoamento profissional?
O Brasil ainda não ratificou a Convenção 156 da OIT, que propõe, entre outras medidas, que mulheres e homens possam conciliar cuidado e trabalho sem sofrer penalidades no emprego. Por ora, o Plano Nacional de Cuidados (Lei 15.069/23) é o principal instrumento que materializa o direito ao cuidado no país: cuidar de quem cuida. Mas é preciso mais.
Enquanto nos unimos em busca da igualdade, seguimos aprendendo que essa luta é de todas e todos e também uma luta pelo direito de ser, de existir, de conquistar espaços. Uma luta em que a imperfeição nos ensina a sermos melhores, mais justas e mais fortes a cada dia.
No presente, ressoam as vozes das mulheres que, no malabarismo cotidiano, assumem múltiplas tarefas, estão esgotadas mentalmente, recebem salários menores e, ainda assim, saem bravamente para mais um dia.
Que no Dia das Trabalhadoras e Trabalhadores, “A Luta”, “A Justiça” e “A Esperança” ecoem, para que o avanço real e palpável caminhe ao lado do verbo resistir como prática cotidiana.
Parabéns, bravas!
*VIVIANE FRANÇA é Mulher, Advogada, Pesquisadora, Mestre em Direito Público, Especialista em Ciências Penais, autora do livro Democracia Participativa e Planejamento Estatal: o exemplo do plano plurianual no município de Contagem. Secretária de Defesa Social de Contagem/MG, Sócia do França e Grossi Advogados.