Coluna Mulher – 24.05.2026 – Melhor fase

Por Viviane França (*)

Completei 40 anos no último dia 07/05. Taurina, raiz, sem cirurgias estéticas (eu, particularmente, não gosto), bem resolvida, até demais. Resolvi escrever porque tenho ouvido muito das pessoas a expressão: “você está na sua melhor fase, Vivi! Bonita, feliz, cheia de luz”. Feliz eu estou, mas ouvir isso de tantas pessoas, algumas muito próximas, outras que me conhecem menos, me fez refletir bastante sobre a expressão “melhor fase” e o quanto é complexa a definição de felicidade.

Qual seria a melhor fase da vida de uma mulher? Os 40 anos, os 50, os 20? A partir desse questionamento, que fiz a mim mesma, refleti sobre a minha história de vida e o quanto a felicidade se simplifica à medida que os anos passam.

Quando eu tinha mais ou menos 12 anos de idade, estava brincando com os meus primos na rua, no bairro Monte Castelo, em Contagem, quando vi uma mulher parar o seu carro em frente à garagem da sua casa, descer, com os pés descalços, um short e os cabelos longos soltos e abrir o portão. Em seguida, ela retornou ao carro, manobrou o veículo para dentro da garagem e fechou o portão. Aquela cena, uma mulher, sozinha, no seu carro, me trouxe a sensação de uma liberdade tão avassaladora que aumentou o meu desejo de ser assim… livre, ao volante, absolutamente independente. O meu desejo de tirar a carteira de motorista e ter um carro só cresceu a partir daquele momento. Eu era uma menina, no ensino fundamental, de família humilde, aluna de escola pública, que só brincava na rua naquele instante.

Fui determinada e, quando completei 18 anos, juntei tudo o que pude para tirar a minha carteira de motorista, conquistada logo depois de completar 19 anos. Saí daquele exame com o comprovante de aprovação numa felicidade tão grande que não tenho dúvidas: aquele foi um dos dias mais felizes da minha vida. E olha que eu não tinha carro e nem perspectiva de ter um naquele momento.

Nas férias, quando dirigia o carro do meu avô rumo à Paraopeba, pra roça, eu me sentia a dona do mundo, com apenas 19 anos de idade, somente ele e eu pela BR-040. Chegava lá, arrumava a casa, fazia o almoço, varria o quintal, capinava, debulhava o milho. Eram dias agitados, de trabalho braçal intenso, mas eu me sentia absolutamente feliz. Quando íamos à cidade comprar algo, eu ia dirigindo (ele já não dirigia mais) e achava aquela independência incrível, somada à confiança que ele depositava em mim ao me ceder o seu carro. E assim foram inúmeros momentos marcantes.

Depois, me formar na faculdade, a duras penas, como bolsista integral, e receber o título de destaque acadêmico do curso, uma única distinção em um universo de 60 formandos, me fez passar mal. Passar mal de felicidade!

Poderia descrever mais dezenas de episódios como os dias mais felizes e os melhores momentos da minha vida, mas utilizei esses exemplos para uma reflexão: vocês já pararam para pensar que a vida é um carrossel de melhores momentos? Sem dúvida, chegar aos 40 anos com grande parte das minhas metas cumpridas me faz transbordar satisfação e felicidade. Não apenas por isso, mas por compreender, com mais maturidade, as pequenas coisas que de fato importam. Por ter aprendido, ao longo do percurso, o meu tamanho no mundo: nem mais, nem menos. Uma lição que cabe a todas as mulheres, porque é a partir daí que deixamos de nos abalar pelo que não importa e não fará diferença em nossas vidas.

Não precisar mais contar as moedas para comprar o refresco no horário do lanche e, agora, poder fazer com mais liberdade o que me faz sentir bem… Acho que sim: estou em mais uma melhor fase, de tantas melhores fases colecionadas ao longo da vida. Todas igualmente importantes, porque me completam e me definem como a mulher de 40 que me tornei.

Viver é, além de revolucionário, um ato de coragem, especialmente para as mulheres. Que possamos entender que a nossa história, formada por alegrias e cicatrizes, nos faz únicas, originais e completamente fora da curva! Viva os 40+!

 

*VIVIANE FRANÇA é Mulher, Advogada, Pesquisadora, Mestre em Direito Público, Especialista em Ciências Penais, autora do livro Democracia Participativa e Planejamento Estatal: o exemplo do plano plurianual no município de Contagem. Secretária de Defesa Social de Contagem/MG, Sócia do França e Grossi Advogados.

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