Opinião – Professor Geraldo Guimarães – Salvar a educação é salvar a sociedade

Por Professor Geraldo Márcio Alves Guimarães

É impressionante a triste escalada da banalização dos valores, das regras de má conduta e do desrespeito às autoridades em prol de uma falsa defesa de convivência democrática. Hoje, tudo é relativo; tudo é permitido.

As leis obsoletas, em vigor no país, fazem do bandido “coitadinho”, vítima da sociedade. Se menor então, nem se fala. A ele, o bandido, todos os direitos e os benefícios de uma lei caduca. Ao cidadão de bem, trabalhador, que paga impostos exorbitantes, quase nada lhe é proporcionado em termos de segurança e garantia para que produza e contribua cada vez mais para o crescimento do nosso Brasil.

Só a educação poderá modificar esse estado de coisas, mas, na realidade, o que se nota é uma total inversão de valores, em face da mercantilização do ensino, que considera o aluno cliente, com consequências funestas, tais como: reprovar é proibido; prova não prova nada; disciplina e respeito à autoridade são questões ultrapassadas. Assim, eis que surge uma geração de adultos despreparada, sem visão crítica, incapaz de enfrentar desafios e conflitos e de respeitar o outro, com toda a sua complexidade e diversidade.

O mais grave é que tudo isso ocorre com o respaldo de burocratas da educação, carreiristas descompromissados com a formação de nossa juventude, que permitem que os alunos considerem os professores seus empregados. Daí o discurso anárquico em que o aluno, sem limites e mimado, culpa tudo e todos por seus fracassos e suas frustrações, principalmente responsabilizando indevidamente o cidadão que lhe dará emprego, se arrisca nos negócios e paga impostos, como vilão e explorador, numa visão equivocada, maldosa e injusta.

Faz-se necessário destacar a precariedade das escolas públicas, incumbidas de ministrar os ensinos fundamental e médio, principalmente as das periferias, onde falta quase tudo, inclusive professores, que, por medo, se recusam a permanecer naquelas escolas, devido à recorrente violência. Muito pior no interior. Como resultado, os índices de aproveitamento escolar das crianças e dos jovens carentes são baixíssimos e alarmantes, culminando com significativa evasão escolar.

Essa ineficiência do Estado introduziu mecanismos de mercado na educação pública, enfatizando a noção de que é preciso garantir maior eficiência e eficácia ao processo educativo, o que resultaria na excelência da educação, fato que poderia se concretizar somente com a presença do setor privado.

Dentro dessa perspectiva, pode-se inferir que a expansão escolar, além de possibilitar que o ensino se realize como mercadoria, constituindo-se num empreendimento altamente lucrativo, amplia o mercado de bens e os serviços necessários à materialização da escola.

A Confederação Nacional dos Trabalhadores de Ensino, com o lema “educação não é mercadoria”, vem defendendo há muitos anos a regulamentação da educação privada como bem público e concessão do Estado. Não obstante tratar-se de uma luta louvável, não podemos nos esquecer de que o setor privado contribuiu e tem contribuído para o desenvolvimento do país e a formação de qualidade de milhares de pessoas.

Contudo, é inegável a exclusão progressiva efetivada pelo sistema educacional na medida em que a maioria da população fica sem alternativas para ingressar numa Instituição de Educação Superior pública, por um motivo: o ensino público de base, precarizado, não consegue prover o aluno de condições para que passe pela barreira social representada pelo Processo Seletivo, ainda mais se se considerar que este mesmo aluno entra em disputa com os da escola particular, que conta com uma estrutura moderna e voltada para a inserção no mercado de trabalho.

Pesquisa realizada pela UNESCO, em que aponta deficiências no ensino fundamental brasileiro cujos dados constam do livro “Exclusão intraescolar nas escolas públicas brasileiras: um estudo com dados da prova Brasil”, escrito por José Francisco Soares, Izabel Costa da Fonseca, Raquel Pereira Álvares e Raquel Rangel Meireles Guimarães, conclui que há margem para a melhoria da qualidade de escolas e professores, sobretudo para os estudantes menos favorecidos, e que os estudantes excluídos do direito de aprender são aqueles expostos a professores menos qualificados e mais sobrecarregados, e os que têm acesso às piores escolas.

Por outro lado, fica claro que os alunos têm menor probabilidade de exclusão educacional quando estudam em escolas com melhores indicadores de qualidade: mais equipamentos, melhores instalações, laboratórios e bibliotecas; equipes de gestores e de professores mais coesas, menos violência escolar e baixo índice de absenteísmo de professores; salários decentes, competitivos, que venham atrair jovens para os cursos de formação de professores e implementação de medidas adequadas com vistas à solução do grave problema dos “analfabetos funcionais”.

Além do mais, é importantíssimo que as escolas ousem e introduzam em seus currículos, em todos os níveis de ensino, disciplinas com conteúdos mais condizentes com a realidade do nosso século, bem como implementem um projeto de educação voltado para a cidadania e o respeito ao outro. Lamentavelmente, a função cultural da escola, sua vertente mais nobre de transmitir valores, foi descartada nos últimos decênios. Ela não cumpre nem sua função de fazer o aluno aprender, aprender a aprender, saber fazer e saber ser, porque tem assumido outras funções que não estas. Meninos e meninas saem da escola sabendo pouco, nada sabendo fazer e, menos ainda, sabendo ser. Estas funções só poderão ser superadas por meio da educação, que é para isto que ela existe: tornar os homens felizes e, o universo, a casa comum de todos.

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