Por Viviane França (*)
A participação das mulheres no transporte de cargas pesadas tem sido uma grande revolução no setor, que vem crescendo a cada ano, um segmento até então ocupado quase exclusivamente por homens. Hoje, aproximadamente 3% dos motoristas de cargas pesadas no Brasil são mulheres. Diante disso, a Coluna da Mulher desta semana entrevistou uma grande caminhoneira de Contagem: Nídia Viana Gomes.

Preta, mãe de cinco filhos, psicopedagoga de formação e caminhoneira, Nídia, também conhecida como Neguinha, tem 43 anos e viaja pelo Brasil e pela América do Sul conduzindo uma carreta. Cabelos longos, sorriso largo e alegria contagiante no rosto, Nídia inspira pela garra e coragem. Começou na profissão para trazer segurança financeira à família; hoje viaja por amor e conta que se encontrou nessa carreira ainda pouco ocupada por mulheres.
É um pouquinho da história dela que passa a nos inspirar…
Me conta, maravilhosa, como você decidiu se tornar caminhoneira?
Bom, eu mesma não tomei essa decisão sozinha… fui impulsionada a procurar algo que trouxesse uma renda maior, uma ajuda financeira para sair da situação difícil que eu e minha família enfrentávamos. Já estava cansada de tentar algo com remuneração melhor. Olhando para o meu marido, que na época já era motorista, decidi trocar a categoria da minha carteira e tentar melhorar nossa renda, dando mais conforto aos meus filhos. Assim entrei para a profissão e me apaixonei por caminhões. Amo o que faço, e hoje não é só pelo dinheiro, mas por mim, por entender que enxerguei a possibilidade de ser diferente de tudo que já havia imaginado. Desafiei meus próprios limites e hoje vivo em paz.
Sua profissão é predominantemente masculina. Quais os desafios que você enfrenta como mulher caminhoneira?
A profissão é muito masculina, mas vejo que as mulheres estão ocupando cada vez mais espaço. Enfrentamos preconceito, falta de apoio profissional e violência. Precisamos provar constantemente que somos capazes e competentes.
O que é mais difícil no dia a dia?
Com certeza, a saudade da família. Amo o que faço, mas sinto falta deles.
Quais as inseguranças que você enfrenta na estrada em relação à violência contra a mulher? Você já sofreu algum tipo de violência no exercício da profissão?
Graças a Deus, nunca sofri violência física. Já passei por insultos e xingamentos, mas nada que violasse minha integridade física.
Qual o recado que você deixa para as mulheres que são desafiadas diariamente a desistir?
Todos os dias, nós, mulheres, vamos encontrar alguém disposto a nos desanimar, mas somos mais fortes do que imaginamos. Ter sonhos nos obriga a ter metas: tenha metas, foque no que você realmente quer, busque conhecimento. Tudo o que for para ser seu, Deus vai colocar em suas mãos, mas para isso você precisa se levantar, lutar e não desistir. Ter medo é natural, mas ele não pode nos deixar reféns, nem nos privar de viver o incrível, o inexplicável. Não deixe ninguém, nem nada, parar o que você acha melhor para você. Você é capaz, é incrível, é uma mulher extraordinária, leve isso para a vida. E faça de cada dia a porta de entrada para novas possibilidades.
Nídia segue viajando pelo Brasil e pela América do Sul, canta, dança e mostra um pouco disso aos seguidores nas redes sociais (@neguinhaflay). Sem dúvida, é uma mulher que desafia o paradigma de uma estrutura que molda as mulheres para não serem, mas nós podemos, e somos!
*VIVIANE FRANÇA é Mulher, Advogada, Pesquisadora, Mestre em Direito Público, Especialista em Ciências Penais, autora do livro Democracia Participativa e Planejamento Estatal: o exemplo do plano plurianual no município de Contagem. Secretária de Defesa Social de Contagem/MG, Sócia do França e Grossi Advogados.