Por Ciro Carpentieri Neto
Advogado, especialista em Direito Eleitoral, com atuação em Direito Público, e pós-graduando em Administração Pública. É Controlador-Geral da Câmara Municipal de Contagem/MG, onde foi Procurador-Adjunto, e atua na política da cidade há 17 anos.
“Redes sociais e marketing digital não contam toda a história. Mas a proximidade com o eleitor, sozinha, também já não é garantia de fidelidade”
Durante muito tempo, em Contagem, a relação entre eleitores e políticos, especialmente os vereadores, foi marcada pela presença nos bairros, pela proximidade com as lideranças comunitárias e pelo envolvimento em projetos sociais. Sem prejuízo, é claro, do papel fundamental de legislar e fiscalizar, que pelo menos deveria ser a essência dos mandatos parlamentares, esse foi por anos um caminho conhecido para construir e manter um eleitorado.
As eleições de 2026 não sinalizaram a morte desse caminho, mas mostraram que ele, sozinho, já não basta, e isso serve também para a disputa do poder executivo.
Os resultados das eleições evidenciaram o papel de maestro desempenhado pelo marketing digital, estratégico não apenas na construção das campanhas, mas também no fortalecimento dos mandatos.
A pergunta que fica para 2028 é simples de formular, mas difícil de responder. Hoje, com essa nova era digital, o que faz um político ser conhecido, reconhecido e lembrado pela população na hora de votar?
A resposta não está apenas no número de seguidores, nas visualizações ou no engajamento de uma publicação nas redes.
Esses indicadores ajudam a medir a presença digital de um político, mas não revelam, isoladamente, a confiança que ele inspira nem a força das relações que construiu ao longo do tempo. A meu ver, a disputa municipal de 2028 será decidida na combinação entre essas duas coisas.
Antes de avançar, uma cautela. Eleições gerais e municipais, por óbvio, são disputas bem diferentes. Em 2028 o número de candidatos será muito maior, a relação com o eleitor é mais próxima e cada cidade terá sua própria dinâmica, marcada por relações comunitárias e alianças regionais. Os efeitos de 2026 não podem ser transportados de forma automática. Mas uma coisa é certa: o ambiente em que a disputa municipal vai acontecer não será mais o mesmo.
Nossa cidade é um bom ponto de observação dessa mudança. As relações de proximidade que marcaram a história política de Contagem continuam existindo, mas passaram a funcionar em um ambiente no qual o digital se tornou protagonista e o contato físico, coadjuvante.
Hoje o eleitor acompanha instantaneamente as manifestações de um vereador, consulta as posições de um prefeito, assiste a uma sessão legislativa pelo Youtube, compara declarações e compartilha informações. Com o celular na mão o tempo todo, ficou mais fácil conhecer políticos que ele nunca viu pessoalmente, mas cujas pautas acompanha e que vão se tornando opção de voto.
Esse movimento não começou agora. Um levantamento da FGV sobre as campanhas para prefeito nas capitais brasileiras em 2024 mostrou que os vídeos curtos concentraram 91,6% do engajamento no Instagram, representando 69,9% das publicações analisadas. Os dados deixam evidente a força desse formato na comunicação política digital. Em 2026, quem acompanhou as campanhas de perto viu essa linguagem ganhar ainda mais peso.
No entanto, outro estudo sobre as eleições de 2024, feito por pesquisadores das universidades UFABC, UFPB e da UFPR, mostrou que esse peso tem limites. Em apenas 50% das capitais, o vencedor foi o candidato com maior interação no Instagram. Os prefeitos reeleitos, por sua vez, estiveram entre os de melhor desempenho nas redes, o que os pesquisadores associaram à chamada campanha permanente, em que o político se comunica com a população durante todo o mandato.
O primeiro efeito desse novo cenário aparece na assistência social, que por muitos anos foi o carro-chefe eleitoral de muitos políticos em cidades como Contagem. Projetos sociais que inclusive desempenham um papel fundamental na sociedade, muitas vezes, chegando aonde o poder público, não consegue alcançar com a mesma rapidez ou proximidade.
Atendimentos ligados à saúde, ao esporte, à educação e ao lazer sempre criaram uma ligação forte entre o político e os moradores de determinada região. Contudo, a tendência, porém, é que esse vínculo social deixe de ser sinônimo de fidelidade política.
O político pode cuidar do seu eleitor durante quatro anos, oferecendo atividades e atendimentos, promovendo encontros e mantendo o vínculo vivo. Ainda assim, esse eleitor já não carrega aquela obrigação moral com ele, se o político não demonstrar afinidade com aquilo em que acredita.
As eleições de 2026 mostraram que, mesmo reconhecendo uma liderança ou mantendo proximidade com determinado político, o eleitor leva outros fatores em consideração na hora de votar. Quer conhecer seu posicionamento sobre pautas mais amplas, avaliar o trabalho realizado e verificar se sua atuação corresponde às expectativas. Para o cidadão, isso significa ter mais condições de comparar, questionar e cobrar.
Os resultados das urnas chamam muita atenção. Em Contagem, grandes vereadores e vereadoras com um trabalho social de muito alcance tiveram votações para deputado estadual e federal bem abaixo do que esse trabalho fazia esperar, muitos deles mesmo contando com alianças regionais. Por outro lado, alguns vereadores sem apoio direto a projetos sociais, mas que investiram em um marketing digital avançado e adotaram um posicionamento claro, seja ideológico ou não, alcançaram resultados semelhantes e até superiores.
O fenômeno digital não foi só local. No Rio de Janeiro, Rick Azevedo, eleito vereador em 2024 com 29 mil votos, terminou a eleição de 2026, chegando à Câmara dos Deputados com 191 mil, um aumento de 558%. Sua projeção começou com um vídeo nas redes que deu nome a uma insatisfação compartilhada por milhões de trabalhadores, a escala 6×1.
Outro aprendizado que podemos tirar é que o trabalho do mandato não deve terminar com o protocolo de um ofício, Indicação ou de um requerimento, nem mesmo quando a demanda é atendida. O eleitor quer ver ação e entender qual era o problema, o que foi possível fazer, quais foram os resultados e qual foi a atuação direta do político. Por isso, mais do que produzir conteúdo bonito, o desafio será saber o que comunicar, para quem, com que objetivo e com quais informações. Afinal, a campanha tem data para começar, mas a construção da relação com o eleitor, não.
Mais delicado ainda é o efeito do ambiente digital polarizado sobre o próprio debate. Nas redes, assuntos complexos tendem a ser simplificados, enquanto críticas, confrontos e frases de efeito atraem atenção rapidamente.
Para quem gosta da política em si, isso é triste. E esse ambiente certamente chegará à política municipal. Embora a eleição de 2028 envolva questões ligadas à cidade, o eleitorado mostrou em 2026 que quer saber o que o político pensa sobre temas nacionais de grande repercussão, como segurança pública, reforma tributária, aborto e programas sociais.
O político de centro não vai precisar se apresentar como representante da esquerda ou da direita, nem vincular sua imagem a Lula ou a Bolsonaro. Pelo menos até agora, isso não tem se mostrado determinante.
Mas o eleitor demonstrou que tem sede de posicionamento, e isso é bem diferente de adotar um rótulo ideológico.
Posicionar-se não é sinônimo de radicalizar. Um vereador ou prefeito pode reconhecer a complexidade de uma pauta nacional, apresentar seus argumentos, explicar suas convicções e esclarecer os limites da competência municipal.
Para esses políticos moderados, que em Contagem são a grande maioria (cerca de 75% dos vereadores), o desafio de 2028 será apresentar suas posições com clareza, sem transformar toda divergência em confronto. Ficar em cima do muro já não é uma opção.
Voltando à tradição da nossa cidade, nada disso torna dispensáveis a presença nos bairros, as lideranças comunitárias ou os projetos sociais. O contato de perto continua sendo a forma mais direta de ouvir demandas e conhecer realidades. Em uma eleição municipal, com muito mais candidatos disputando votos em territórios menores, é provável que ele pese mais do que pesou em 2026.
Há ainda um limite que nenhuma ferramenta resolve, que é a coerência entre discurso e prática. Posicionamento, divulgação de projetos e prestação de contas só constroem uma relação consistente quando refletem o mandato como ele realmente é. Na política da cidade, em que o eleitor convive com o representante no próprio bairro, a distância entre o que se diz e o que se faz costuma ser percebida rapidamente.
O que 2026 deixa para 2028, portanto, não é a escolha entre a política presencial e a digital. A proximidade continua sendo a base da política municipal, mas agora precisa vir acompanhada de uma comunicação forte, com propósito, e de posicionamento claro.
O eleitor de Contagem continua valorizando quem está perto. Mas hoje ele também tem meios de saber o que esse político pensa, o que fez e se o que diz corresponde ao que faz. Ser conhecido já não é o mesmo que ser lembrado na hora de votar.
As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor e não representam a posição institucional da Câmara Municipal de Contagem/MG, nem deste jornal.